15.11.20

O Retrato de Dorian Gray | Resenha



Finalmente trago aqui a resenha de um dos meus livros favoritos da vida! O livro pelo qual aguardei anos por uma releitura. E que releitura, meus amigos!
Estou falando de O Retrato de Dorian Gray, um romance maravilhoso escrito por Oscar Wilde, que critica e satiriza todos os costumes, moralismos e convenções da Era Vitoriana. E foi justamente essa obra que condenou o autor pelo crime de "flagrante indecência", sobre o qual conversaremos mais no decorrer da postagem. 

Título: O Retrato de Dorian Gray
Autor: Oscar Wilde
Título original: The Picture of Dorian Gray
Tradutor: Jorio Dauster
Editora: Biblioteca Azul
Ano: 2013
Número de páginas: 551
Edição:
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A belíssima pintura na contracapa. Há outra na quarta capa. 


O livro se inicia com o pintor Basil Hallward terminando sua obra-prima: O retrato de um jovem de beleza extraordinária, o que acaba despertando a curiosidade do seu amigo, lord Henry Wotton, que acredita que o quadro deveria ser divulgado. O artista discorda. Colocara muito de si na obra para levá-la assim, a público. 

Eis que chega o modelo: o jovem Dorian Gray, que como Narciso, fica enfeitiçado pela sua própria imagem no retrato. E aqui temos a primeira amostra da ardilosidade de Wilde: não sabemos se isso já era de Dorian, ou se ele foi envenenado pelo lord Henry. Mas ele passa a supervalorizar a sua beleza e juventude e então, diante do retrato, firma um pacto, dando a sua alma em troca daquela imagem para sempre.
Uma das muitas sessões de notas textuais. Esta está ao final do livro e representa as censuras realizadas pelo editor do livro. 


E daqui em diante o enredo pode parecer muito singelo, mas é cheio de significado e críticas em suas entrelinhas.
  
Acontece que Dorian Gray não é um rapaz tão bom e inocente assim. E ele só toma a consciência da barbárie de seus atos quando percebe que a imagem do retrato começa a se modificar, em detrimento de sua face, que permanece jovem, apesar da passagem dos anos. 
Por trás desse enredo, parece haver um amor platônico de Basil por Dorian. E aqui ficamos na dúvida sobre o quanto é a admiração do artista pelo seu adônis, o quanto é uma paixão reprimida ou apenas admiração. 
"- Dorian Gray é meu amigo mais querido - disse. - Tem uma natureza simples e bonita. Sua tia tinha toda razão no que falou sobre ele. Não estrague minha amizade por ele. Não tente influenciá-lo. Sua influência seria negativa. O mundo é vasto e comporta muita gente maravilhosa. Não tire de mim a única pessoa que faz minha vida absolutamente encantadora e dá à minha arte o que ela possa ter de arrebatadora ou admirável. Preste atenção, Harry, confio em você. " (p.99)

Também fica muito subentendido um possível affair entre Dorian e Lord Henry. Seriam coisas de entrelinhas, talvez. Mas essa edição anotada nos entrega muito sobre o enredo e o contexto da obra. 
Falando em edição, gostaria de deixar meus méritos à esse exemplar publicado pela Biblioteca Azul, selo da Editora Globo. O volume está cheio de textos de apoio, notas textuais e as censuras.

Uma página de notas textuais, uma página de texto. E assim segue por praticamente todo o miolo. 



Aliás, essa obra sofreu diversas censuras. Tanto pelo próprio autor, quanto pelas revistas que o publicaram posteriormente, tendo em vista torná-lo mais aprazível à sociedade vitoriana. Todo esse trabalho se deve a Nicholas Frankel, que estudou profundamente toda a obra de Oscar Wilde e adicionou notas de textos simplesmente incríveis. 

Inclusive recomendo demais essa edição para quem deseja realmente aprender sobre a Sociedade Vitoriana, os costumes, um pouco de História da Arte e também para saber mais sobre o autor. Ele consegue pegar o detalhe de uma flor que aparece no enredo e correlacionar com relações homossexuais que os homens da alta sociedade mantinham em segredo. Sério. As notas tanto podem ser lidas logo após a passagem como em um momento posterior, visto que não ocupam o rodapé, mas uma página inteira ao lado da página de texto. Esteticamente, a edição também é muito bonita. Foi confeccionada em capa dura, possui diversas reproduções de pinturas e ilustrações e até mesmo cartazes de filmes sobre a obra. Enfim, é uma verdadeira imersão, um tesouro a se ter na estante e arrisco dizer que valeu cada centavo. O papel é bem grosso  (90 g/m²), papel Pólen, um dos melhores do mercado, folha amarelada, com fonte confortável, margens que cabem perfeitamente os meus dedinhos e espaço suficiente para anotação, além de um bom espaçamento entre as linhas. 

Página amarelada, espaçamento e fonte confortáveis, margem boa o suficiente para anotar, meu post-it e minha caligrafia horrorosa e ininteligível no cantinho.


Oscar Wilde teve um casamento infeliz e de fachada. E mantinha amantes homens. Ao ser descoberto, foi condenado pelo crime de "flagrante indecência", visto que na Inglaterra simplesmente era crime um homem manter relações amorosas com outro homem. E então, o livro foi utilizado como prova para condenar Wilde, depois de o terem denunciado. Pelo crime, o autor ficou 2 anos preso.

Além de questionar muito os moralismos vitorianos, Wilde também entrega em sua obra diversas outras reflexões importantes para o movimento do esteticismo. É sobre o culto à beleza, a arte pela arte. E vemos tudo isso aqui nesta obra, desde à composição perfeita dos cenários até a escolha cuidadosa das palavras (e isso fica ainda mais claro quando vamos nas notas ver o que foi removido e a perda que causou ao enredo). Oscar Wilde era tão preocupado com questões estéticas de sua obra que entregou seus manuscritos em papel vergê. 
"Porque possui agora a mais maravilhosa juventude, e a juventude é a única coisa que vale a pena possuir"(p.111)
Spoiler da escrita do Wilde e uma de suas inúmeras frases de efeito. 


Sobre os personagens, temos construções fantásticas. Desde o Dorian Gray, que se passa por inocente, mas depois vemos que não é bem flor que se cheire. Até Lord Henry, que desempenha um papel quase que diabólico na obra. Manipulando, influenciando e seduzindo. E até que ponto a culpa de Dorian na verdade é de Henry? E Basil, com a sua alma de artista, fiel a seus princípios, mas que visa a "arte pela arte" e possui sentimentos platônicos por Dorian, e isso acaba ficando bastante claro na narrativa. E embora seja bom, ainda nutre profunda amizade com lord Henry. 
" A vida não é governada pela vontade ou pela intenção. A vida é uma questão de nervos, fibras e células que crescem lentamente e nas quais o pensamento se esconde e a paixão sonha." (p.305) 

Em um determinado momento do livro, vemos o tempo passar de forma não cronológica. Achei um pouco confusa e corrida. Este capítulo quer mostrar toda a corrupção de Dorian, mas a meu ver, entrega pouco sobre quais seriam os tais desvios de conduta tão graves do protagonista. As notas ajudam a esclarecer o que para a época poderia ter sido um grande escândalo e foi deixado nas entrelinhas pelo autor. Mas ainda assim eu esperava que houvessem feitos mais graves (como os que acontecem em outros momentos da obra).
"Esse é um dos grandes segredos da vida- curar a alma através dos sentidos e os sentidos através da alma."(p.111)

E assim como aconteceu com o próprio O Retrato de Dorian Gray, que supostamente "corrompeu uma sociedade inteira", o protagonista da obra foi também "corrompido" por um livro que ganhou de presente e o fez mudar de ideia sobre os prazeres carnais e do mundo. E até hoje não entendi o que tanto podia estar escrito nesse livro a ponto de corromper uma pessoa. Bem, talvez um nobre, desocupado, que não tem mais onde gastar o dinheiro tenha melhor noção de como isso pode acontecer. Aparentemente os prazeres eram bastante aristocráticos. Acredito que nós, reles plebeus trabalhadores, apenas leríamos o livro e quem sabe ficaríamos espantados com uma coisa ou outra. Mas jamais seríamos capazes de largar tudo e nos dedicar a o que quer que esteja sugerido por ali.


"Cada um de nós tem o Céu e o Inferno dentro de si, Basil."(p.271)

Agora que divaguei demais, gostaria de voltar a reiterar que O Retrato de Dorian Gray segue como um dos meus livros favoritos da vida, e essa releitura cuidadosa apenas o tornou ainda mais especial para mim. Não sei bem explicar o porquê. Talvez pela escrita ácida e cheia de entrelinhas. Talvez pelo realismo fantástico. Ou pelo pacto fáustico. Quem sabe pela quebra de paradigmas sociais. Ou até mesmo pela história do autor por trás da obra e o que ela causou em sua vida, os paralelismos entre artista e obra... E pode ser que eu tenha amado simplesmente pela sua grande qualidade técnica, pelos maravilhosos diálogos, pela quantidade de frases de efeito, pelo seu peso de "clássico" e seu enredo em si. O fato é que amo O Retrato de Dorian Gray. E esta edição é bastante especial e eu recomendo de olhos fechados, pois é uma verdadeira experiência de imersão no livro de Oscar Wilde. 

Nota: 



Um comentário:

  1. Gostei muito da sua resenha. Eu só fiquei com mais vontade de ler. Esse passar do tempo de forma não cronológica me deixou curiosa, acho que nunca li nada parecido.

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Ilustração por Wokumy • Layout por