31.1.20

Tieta do Agreste - Resenha

Tieta do Agreste: Pastora de cabras ou a volta da filha pródiga, melodramático folhetim em cinco sensacionais episódios e comovente epílogo: emoção e suspense!
E é assim que Jorge Amado define um de seus livros mais emblemáticos. Polêmico, delicioso, mas que me deu muita raiva em algumas partes. Realmente foi uma boa escolha transformar esse livro em novela. O enredo é altamente propício!

FICHA CATALOGRÁFICA

Título: Tieta do Agreste
Autor (a): Jorge Amado
Editora: Record
Ano: 1979
Número de páginas: 592
Edição:

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PS: aparentemente o livro está esgotado no Brasil. Triste :(


Eram três irmãs: a pobre, Elisa, casado com o dono de uma loja de tecidos que pouco lucra; Perpétua, a remediada, que pode contar com uma confortável herança deixada pelo marido e Tieta, a rica, que após ser expulsa e humilhada de Santana do Agreste, fez fortuna em São Paulo e manda todos os meses uma carta e uma quantia em dinheiro para as irmãs, para o pai (que a expulsou de casa a pauladas) e para a madrasta. 


Porém um belo dia a carta de Tieta (e o dinheiro) para de chegar. Ora, para parar com a generosidade assim, de uma hora para a outra, Tieta só poderia ter morrido. Então o velório sem um corpo é feito,organizado por Perpétua, a beata. Então a esperada carta chega: Tieta agora é viúva e está indo passar um tempo em Agreste. 

Perpétua resolve que deve preparar um cortejo para agradar a rica viúva - todos enlutados, em respeito ao Comendador Felipe Cantarelli. Mas imaginem a surpresa ao ver Tieta descendo da icônica marineti de Jairo, trajando vermelho e azul, óculos escuros e uma bela peruca loira! E ainda acompanhada pela enteada Leonora Cantarelli.

E ela começa a ser bajulada por toda a cidade por ser muito rica (e linda) e por estar comprando imóveis para quando voltasse em definitivo, já aposentada. 



A família de Tieta é toda interesseira. Perpétua faz de tudo para empurrar os filhos para que de alguma forma sejam adotados ou beneficiados por Tieta. Elisa escondeu por anos que o filho havia falecido para arrancar dinheiro da irmã. O velho Zé Esteves, que humilhou e expulsou a filha de casa, vive na miséria para guardar praticamente todo o dinheiro enviado por Tieta. 

Achei o enredo muito interessante, assim como Jorge Amado conduz seus diálogos e narrativa. Parece que você está numa cidade do interior, ouvindo as fofocas dos vizinhos e conhecidos. As tramas e a quantidade de personagens lembram bastante uma novela (e talvez por isso a obra tenha feito ainda mais sucesso neste formato, afinal a novela é lembrada até hoje).

É interessante ressaltar que mesmo sendo escrito na década de 70, Tieta traz algumas diversidades que cobramos nos livros de hoje. Ela é uma protagonista feminina, não branca, nordestina que enriqueceu em São Paulo, muito inteligente, com grande liberdade sexual e sensualidade, muito empoderada e até mesmo com uns atos moralmente questionáveis. Temos também Carmosina, a agente do correio, a personagem mais inteligente do livro. Os homens, como é de se esperar, são todos uns babacas. Não sei se o autor quis representar o pensamento provinciano, mas todos reproduzem pensamentos e atitudes extremamente machistas e tratam a mulher como objeto, como "mulher para comer e mulher para casar"- me perdoem a vulgaridade do termo. 

Inclusive achei interessante em um momento da narrativa Astério, marido de Elisa, ex-frequentador da Pensão de Zuleika Cinderela (uma casa de prostituição), diz não fazer com a esposa a mesma coisa que fazia com as prostitutas, pois não era certo. Em uma passagem bem mais para a frente, Elisa fica revoltada com esse posicionamento masculino e revela que ela também queria ter prazer sexual. 



Três pontos muito problemáticos que jamais foram questionados na narrativa:
- Muita alusão à zoofilia. Coitadas das cabras!
- Não há crítica alguma quanto à iniciação sexual de meninos de 13 anos com prostitutas. Isso é estupro! Sem falar no machismo que está por trás desse ato - o menino é obrigado a fazer sexo com uma mulher muito mais velha, sem ter direito de descobrir sozinho sua própria sexualidade quando se sentir confortável. Sem falar na pressão por parte da família e amigos. 
- Mulheres sendo objetificadas O TEMPO TODO. Secretárias belíssimas dormem com um político para suborná-lo, a mando do diretor da empresa. Sério, isso me irritou demais com Tieta. 

Fora os fatos apontados, me incomodou o fato de uma mulher de quase 50 anos tendo relação sexual com o sobrinho de 17 anos. Falo isso pelo fato de ser sobrinho (pode ser apenas um excesso de moralismo e preconceito meu? Pode. Quero conversar sobre isso com pessoas mais esclarecidas para eu sair um pouco da minha bolha), e também pelo fato de eu sempre criticar e sempre ver muitas críticas quando ocorre o contrário, um homem mais velho com uma menina. Mas sei lá, também pode ser preconceito meu. Podemos conversar sobre isso também. 



Outros problemas da obra, que acho que foram discutidos de forma crítica são o interesse da família em Tieta (quando era só uma menina que queria aproveitar de sua liberdade sexual ela foi expulsa de casa, mas pôde voltar, recebida feito uma rainha, depois de rica). E também algum machismo provinciano, como só casar se a moça for virgem, humilhar uma mulher de roupas curtas e a hipocrisia de personagens extremamente religiosos. 

O livro também traz à tona a questão ambiental, quando uma fábrica de dióxido de titânio quer se instalar na bela praia de Mangue Seco, e há a discussão entre o progresso e a saúde da população. Há a corrupção de um personagem anteriormente honesto e íntegro, seduzido pelo poder. Mas foi justamente essa parte que deixou o livro enfadonho (alguém usa essa palavra ainda?). Começou a ter muita enrolação, parecia que a história não desenrolava mais. Fora que antes disso, outras partes ficaram meio paradas, sem acontecer praticamente nada... 

O livro não surpreende ao contar a forma como Tieta enriqueceu e conheceu o Comendador, mas entrega aos poucos, de uma forma deliciosa. E é no meio de um relato à Leonora sobre o seu passado, com muitas interrupções, que Tieta conta sobre sua meninice em Agreste. Um começo sensacional. 

O final do livro mostra que no fundo, ninguém muda de verdade, e velhos preconceitos não são quebrados.  Talvez eu olhe para os meus de outra forma, não é mesmo?

Para os que não se importam com spoiler ou que já leram a narrativa, vou deixar um estudo sensacional sobre as 3 mulheres que compõem a personagem Tieta. Eu queria falar sobre elas, mas daria muito spoiler por aqui. 

Nota:

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Ilustração por Wokumy • Layout por