22.11.17

Existe livro para "idiota"?


Primeiramente, mil desculpas pelo meu sumiço nesse feriado. Estava tudo planejado para o blog, porém minha querida internet ficou de sexta-feira a domingo fora do ar e eu não tinha como soltar a resenha aqui no blog e muito menos o vídeo no canal. A resenha sai sexta-feira sem falta. 

Mas hoje o motivo da minha revolta é outro. Em um grupo de leitores que participo no Facebook foi compartilhado um link da Revista Bula com uma lista do mais extremo mal gosto. O texto foi escrito por Tadeu Braga (sim, acho importante ressaltar quem escreveu para não deixar a culpa apenas na revista que aprovou um absurdo desses) e elenca 10 livros lidos por "idiotas".

Primeiro, quero ressaltar que preconceito de espécie alguma é tolerado neste blog. E preconceito literário muito menos, visto que esse é o nosso foco. E essa lista é o preconceito literário mais puro e destilado. 


Primeiramente, vamos definir "idiota". Segundo o Dicionário Aurélio (sim, tirei a poeira do meu Aurélio que está todo esfarrapado, coitadinho):
I.di.o.ta adj2g e s2g 1- Que ou quem é pouco inteligente; ignorante; imbecil 2- V. tolo (1,2 e 7) 3- psiq diz-se daquele que sofre de idiotia.
O problema começa aí. Nós vivemos em um país em que apenas 56% da população é considerada leitora. Para isso ela precisa ter lido todo ou em partes ao menos 1 livro nos últimos 3 meses. Ou seja, não precisa de muito para ser considerado leitor no Brasil e se formos ver quem tem o hábito da leitura esse número certamente é bem mais baixo. O problema é ainda mais grave quando vamos olhar a nossa taxa de alfabetização: 8%  dos brasileiros com mais de 15 anos não sabem sequer ler ou escrever. Isso totaliza 12,9 milhões de pessoas. 

Num país onde a educação é precarizada (e não falo apenas de escolas públicas, parte das nossas escolas particulares também não são grande coisa) e onde preço médio de um livro gira em torno de 30 reais, ou seja, 3,2% do valor do salário mínimo (aquele que não paga as contas básicas) chamar de idiota alguém que não tem o hábito de ler ou que lê livros considerados "baixa literatura" torna-se ainda mais grave. 

Imagine Maria, uma jovem de classe baixa, sem exemplos leitores em casa, estudante de escola pública que vê lançar em todos os cinemas um filme chamado Crepúsculo, com uns atores bonitões baseado na obra de uma tal Stephanie Meyer. Maria se encanta pelo filme, assim como todas as suas colegas e logo se interessa pelo livro. Vai lá, junta um dinheiro e pede na revista da Avon. Ou procura uma biblioteca. Tanto faz. Lendo Crepúsculo, Maria descobre os personagens têm como livro favorito O Morro dos Ventos Uivantes de Emily Brontë. Crepúsculo foi o primeiro contato dessa jovem com a literatura. E o segundo contato foi aquele clássico que seus personagens favoritos tanto amavam. 

Talvez a escola de Maria tenha passado algumas leituras obrigatórias. E ela pode não ter lido e feito a prova ou trabalho apenas com um resumo encontrado na internet. Pode ter achado aquele livro escrito em 1800 e alguma coisa extremamente chato e não entendeu palavra alguma. 

Eu sou o oposto de Maria. Venho de uma família de leitores, que sempre valorizaram a educação, não estudei em escola pública (ou totalmente dependente de verbas do governo) durante minha vida toda, e de uma condição sócio-econômica que me coloca na classe dos 15% mais ricos do Brasil. E como nossa desigualdade social é muito exacerbada, estou numa classe relativamente alta mesmo sem ter condições de viajar para o exterior e de comprar livros fora de promoções.Sem condições de ter um padrão de vida "de rico". E mesmo sendo privilegiada, criada com leitura dentro de casa, achava chatos os livros da escola e sim, já recorri a resumos para fazer a prova por simplesmente não entender e não aguentar a chatice que achei "Amor de Perdição". 

Agora, eu fui introduzida à Literatura desde pequena. Nos meus 13, 14 anos me interessei por Shakespeare. E mesmo assim gostava sim de livros "modinha", inclusive o próprio Crepúsculo apontado como livro para idiotas nessa lista (não em uma categoria só para ele, mas citado diversas vezes). Livro este que encaminhou muitos jovens para a leitura, como a personagem fictícia desta postagem e como vi acontecer à minha volta na sala de aula. Se antes de Crepúsculo eu era uma das únicas que lia em minha classe, depois dessa febre vi muitas meninas com livros na mão. 

Classificar um livro como "para idiotas" é, no mínimo, idiotice. Porque tomando como exemplo os best-sellers, eles introduzem novos leitores. Estes que podem ou não ficar mais exigentes quanto a livros com técnicas literárias e narrativas e talvez enredos mais elaborados, mais trabalhados. 

Esta lista inclui cânones como "O Retrato de Dorian Gray" e tenho certeza que para clocá-lo nessa lista nefasta o autor sequer entendeu o sentido do livro. Sim, eu li Dorian Gray. E pretendo reler porque tenho a mais plena certeza de que também não compreendi profundamente a sua mensagem. 
A justificativa para este livro estar na lista é que "O que se vê ultimamente é um culto à memória de Wilde mais pela sua herança de mártir do que pela sua capacidade intelectual. E não é incomum ouvir palavras proferidas por seus personagens na boca de seus leitores sem nenhum traço de personalidade."

Sim, eu copiei e colei da matéria. Por isso o destaque. Independente do motivo que levou alguém a ler Wilde, esse alguém teve contato com sua mensagem, suas reflexões. Com a crítica ácida à sociedade Vitoriana e sua frivolidade. E o autor dessa barbaridade de lista se sente no direito de "escolher" quem tem ou não personalidade para citar uma frase do autor. Eu não vou mentir, fui levada à Oscar Wilde por uma música do James Blunt, Tears and Rain. Uma frase me deixou curiosa, dei um Google para saber quem era o tal do Dorian Gray e rapidinho peguei um exemplar emprestado para ler. E hoje Wilde é um dos meus autores favoritos, cuja obra quero conhecer por completo algum dia. Segundo o autor dessa lista, sou uma idiota. Pois bem, idiota com muito orgulho. 

Outro comentário que não posso deixar passar em branco é o referente ao Morro dos Ventos Uivantes. Quando eu li, eu não gostei muito, porém tinha meus 15 anos e obviamente maturidade nenhuma. Por isso uma obra deste calibre (assim como Dorian Gray) consta na minha lista de futuras releituras e até mesmo na TBR Jar. Ele fala que Crepúsculo atraiu idiotas para a obra de Brontë e levou a uma reedição com a seguinte frase na capa: "o livro favorito de Bella e Edward". Ok, se eu fosse a editora não teria colocado essa frase. 
A semelhança entre as capas é inegável

Mas vamos raciocinar? Eu comprei essa edição. Estava à venda naquelas revistas da Avon, um preço muito bom. Morava em uma cidade em que havia uma livraria apenas, com poucos títulos e muito cara (e a livraria abriu vários anos depois que me mudei para lá, diga-se de passagem). A internet era péssima, e o frete para o interior do Maranhão era um absurdo, então só podia comprar livros com promoção de frete grátis e juntava a lista para pegar todos de uma vez e encaixar no preço. Revista da Avon era uma opção prática e barata. E eu estava curiosa para ler o tal do Morro dos Ventos Uivantes. Em uma revista que basicamente só tem best-sellers é praticamente uma surpresa encontrar um clássico da literatura, pois o público que o lê não procura lá em primeiro lugar. 

A editora, uma empresa que visa lucro, coloca na capa essa frase de efeito e pronto, venda garantida. Com um design parecido ao do best-seller e um link com o mesmo a editora garantiu suas vendas pegando carona no sucesso publicado pela concorrente. E lembra da frase "não julgue um livro pela capa"? Pois bem. Você não pode condenar uma obra por causa da estratégia de marketing de uma editora. Que está publicando uma tradução ainda por cima, não é nem a responsável pelo sucesso da obra em si!! Essa afirmação reduz a idiotas as pessoas que como eu compram a edição econômica, seja pelo motivo que for. 

O autor dessa lista condena também Clarice Lispector, com A Hora da Estrela (que se fosse um livro ruim não seria tão cobrado em vestibulares, não é mesmo?) , por ser uma autora muito mencionada na internet, creditando frases que não são suas. E desde quando a autora tem culpa que as pessoas atribuem a ela frases nada a ver? E por que as frases aleatórias bonitinhas do tumblr não podem ter levado uma pessoa a se interessar pela nossa autora dos fluxos de consciência e aí sim atribuir a ela as frases corretas?

A lista consta com muitos outros absurdos (como chamar de vadia uma mulher que vive em um relacionamento abusivo romantizado), e você pode passar raiva clicando no link que deixarei abaixo. Também deixarei listadas as matérias das quais tirei dados para compor esse post. Pode conferi-las caso reste alguma dúvida.  Não esqueça de me contar nos comentários o que você acha de listas como essas. 

44% da população brasileira não lê e 30% nunca comprou um livro, aponta pesquisa Retratos da Leitura

Redes sociais
Instagram (@checkinvirtual)
Facebook
Twitter
Pinterest
Skoob 
Youtube
Snapchat: checkinvirtual


8 comentários:

  1. Caramba! Que lista horrorosa! Achei brilhante você abordar este tipo de preconceito! Parabéns
    Infelizmente algumas pessoas ainda acham q a informação é sinônimo de poder e para estes, quanto mais elitista for a literatura, melhor.
    Mas é claro que estamos em outros tempos e é maravilhoso que a literatura hoje se transformou em uma forma de entretenimento e certamente, há gosto para todo tipo de história!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Toda forma de literatura é cultura... fora que com o hábito você se torna mais exigente. Ainda bem que a literatura vem ficando mais acessível em todos os aspectos. Porque ela perde boa parte da sua função se ficar restrita a uma elite. Adorei seu comentário!

      Excluir
  2. Nossa, você arrasou com esse post. Amo ler e fui introduzida a isso quando tinha apenas 7 anos. Meus avós adoravam ler e me ensinaram a importância da leitura. Desde então, não larguei mais e é meu passatempo predileto. Largo tudo pela leitura. Infelizmente, existem muitas pessoas que acham a leitura uma grande bobagem. Vejo estudantes que desaprovam o pedido da leitura de um livro feito por professor. Eu simplesmente não entendo isso. Não consigo conceber a falta de leitura.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigada! Também não consigo compreender essas pessoas... Mas admito que às vezes falta uma sincronia entre pedidos de leitura dos professores e capacidade de compreensão ou até mesmo de afinidade dos alunos com as obras... Deveria haver um equilíbrio entre clássicos e contemporâneos.
      Muito obrigada pelo comentário!

      Excluir
  3. É a matéria mais estúpida que já li na vida. Eu não sabia sobre ela e decidi clicar no link antes de comentar aqui e me arrependi.
    Eu leio de tudo! Não tenho preconceito literário. Há gêneros que não me agradam, mas sei que agradam outras pessoas e qualquer forma de leitura é válida.
    Já li clássicos, sou fã de fantasia e vira e mexe pegou algum best seller..
    Idiota mesmo é esse preconceito =/
    TRISTE NÉ?

    Adorei sua publicação

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada, Clayci!! É muito estúpida. Afinal, cada um lê o que gosta e ninguém tem nada a ver com isso!

      Obrigada pela visita! :)

      Excluir
  4. Oi, Liv, tudo bem?
    Nossa, eu não tinha visto esse texto da revista e cliquei para ter acesso ao material. Achei bem absurdo porque, como você disse, o importante é a pessoa ler, independentemente do gênero literário que instigue isso.
    Realmente o Brasil ainda tem muito para evoluir.
    Beijo,

    Hida

    www.blogdahida.com

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Nossa, e pior que invés de evoluir, regredimos cada dia mais... Exatamente, o que importa é ler!
      Beijão!

      Excluir

Quero saber sua opinião! Ficarei muito feliz com o seu comentário!



Ilustração por Wokumy • Layout por