8.5.17

Sobre a efemeridade do tempo

Imagem: Reprodução/ Pexels
Ultimamente me peguei pensando, não uma, mas várias vezes, no tempo em que desperdiçamos cumprindo obrigações. Que tempo que nos resta para realmente viver? Tenho andado tão atarefada que lavar o cabelo torna-se luxo. Enquanto isso, todos os pequenos prazeres, aqueles que me fazem quem eu sou, vão ficando para depois. Fica para depois um bom livro, que está pegando poeira na minha escrivaninha, fica para depois uma xícara de chá, aquele filme na Netflix, a sobremesa que queria cozinhar. 

E só quando acontecem algumas situações, algumas ruins, outras terríveis, é que percebemos o óbvio. Não somos donos do tempo. Desperdiçamos muitas energias e muitos momentos que poderiam ser vividos hoje planejando um futuro que nem sabe se terá. 

Pense na sua vida. Pense em quantos planos já fez, em tudo o que sonhou, nos sonhos que realizou. Agora veja quantos deles era o que realmente esperava. Lembro que quando criança eu chegava da escola e ia correndo pegar meu almoço para assistir X-Men na TV.
 Eu queria mais que tudo poder estudar na parte da tarde, porque teria a manhã livre para os desenhos que só via nas férias. Eu idealizava tanto o estudo em período vespertino... Até que mudei de cidade, e na escola nova a quarta série só tinha aulas à tarde. Foi uma felicidade momentânea. Eu teria a manhã livre...

 Mas aí percebi que precisaria acordar cedo de qualquer forma para ir no inglês e na natação. Que precisaria usar as manhãs para a lição de casa, e que se dormisse demais  nem veria desenhos, nem estudaria e ainda teria perdido o meu dia inteiro. Percebi que a manhã passava mais rápido e que morando no Maranhão era desumano assistir aulas à tarde com aquele calor e com uma sala lotada de alunos, tendo apenas 2 ventiladores "mequetrefes" para atender a demanda. E eu odiava a bermuda do uniforme. Estudar a tarde não era tão legal assim... 

Hoje adiamos nossa vida para depois do vestibular, depois do cursinho, depois da faculdade. E a verdade é que o mundo nos obriga a fazer coisas que deveriam ser prazerosas, como aprender. O que deveria ser natural e gostoso, passa a ser torturante e a valer notas. E você perde sua personalidade e passa a ser um número. Passa a ser um 8, um 5, um 2. Mas você estuda mesmo assim porque sabe que precisa garantir o seu futuro distante. E se resolver não estudar vai ter que trabalhar mais ainda para garantir o futuro daqui a um mês. E assim vamos nos privando da vida e esquecendo que o tempo é líquido, como diz Zigmund Baumann. E sendo ele líquido, é volátil, nos escapa com facilidade e quando abrimos os olhos já se passaram duas décadas e você não precisa mais rebobinar fitas para devolver à videolocadora. 

Harlan Coben, em praticamente todos os livros da série Myron Bolitar, gosta de citar um ditado íidiche, cuja genialidade repousa em sua extrema simplicidade. " O homem planeja e Deus ri", é o que ele diz. E com isso voltamos lá ao começo deste texto meio sem nexo, meio com tom de desabafo. Planejamos sim. Mas quem garante que dará certo? Quem garante que será como o esperado? Quem garante que estaremos vivos amanhã? Ou se teremos saúde para realizar a viagem para a qual estamos juntando dinheiro com expectativas de realizá-la em x anos? Ou se simplesmente ainda iremos querer cumprir o que planejamos? 

Porque nós mudamos o tempo todo, nossa vida muda, e consequentemente nossos planos mudam. E a vida segue em seus altos e baixos, passando de mãos dadas com o tempo enquanto você está aí, olhando para dentro de si e aflito com um futuro que nem sabe se viverá. 

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Ilustração por Wokumy • Layout por