3.4.17

Crônica de uma viagem qualquer


Pego ônibus todos os dias. Viajo uma hora na ida, outra hora na volta. São duas horas de estrada por dia. 

Duas horas a mais de sono, um sono gostoso embalado pelo movimento do veículo. Quando eu não estou muito cansada, raridade esse semestre, consigo transformar metade desse tempo em leitura. Aí eu estou numa metalinguagem viajante. Vou para outro universo, outros países, outras dimensões enquanto viajo entre campinas e Jundiaí. Um movimento pendular que me faz passar mais tempo na cidade de estudo que na de residência, onde vou apenas para dormir. 

Eu pensei que com esse tempo todo estivesse saturada de viagens de ônibus. Mas eis que um veículo diferente do fretado que pego todos os dias me despertou uma epifania. Uma das tantas que costumo ter e nem sempre transformo em texto. Mas me deu uma vontade danada de ir até a rodoviária e tomar um ônibus rumo ao desconhecido. 

Qualquer cidade nova. Pode ter praia, cachoeiras ou prédios históricos. Pode ser perto ou longe. Aliás preferia que fosse relativamente longe. Assim poderia fazer refeições em restaurantes de  beira de estrada, tomar um café com leite e pão na chapa em uma rodoviária qualquer, dormir em horários incomuns. Poderia ver o sol se por no caminho e nascer por entre as serras. Observar e matar a saudade das paisagens do meu Brasil. Imaginar como seria a vida naquela casinha no meio do nada, sem vizinhos, mas com uma antena parabólica. E ver que a globalização chega onde menos imaginamos. 

Queria terminar um livro no percurso e levar mais dois na mala, um para a volta e outro para o passeio em si. Tudo isso acompanhada de uma boa música. Provavelmente eu precisaria voltar quase uma década e arranjar um tocador de mp3 porque a bateria do meu celular já não está das melhores e não aguentaria tantas horas no Spotify. 

Quem me ouvir falando pensaria que eu amo viajar de ônibus, e na verdade detesto. Eu fico enjoada muito fácil e o balanço desse veículo alto se torna muito mais acentuado. Eu meio que me acostumei, mas quando ligam o ar condicionado parece que piora o mal estar... 

Mas sei lá, deu uma vontade de cair na estrada rumo ao desconhecido... Uma vontade de fazer alguma coisa que não faço há algum tempo... 

Encararia numa boa uma viagem dessas, mesmo com um certo desconforto,  não seria a primeira e nem será a última.

3 comentários:

  1. Adorei!
    De vez em quando também tenho disso. Às vezes parece que uma coisa banal, que faz parte do nosso dia-a-dia, desperta alguma coisa diferente na gente. Aí vem uma reflexão poética, um sentimento bonito, uma coisa nova.
    Amei essa crônica, foi muito gostosa de ler! Vou adorar ler novos textos como esse <3

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    1. Obrigada!!!! Me senti tão feliz em ter escrito esse texto... eu fazia tanto disso na minha adolescência e com o passar dos anos parece que foi se acabando... Adoraria ler suas reflexões poéticas também!!

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  2. Esse ano tenho andando muito menos de ônibus comparado ao ano passado, que eu fazia curso pela manhã e estudava a tarde, odiava acordar cedo, mas TODA vez era legal estar lá, ver o dia amanhecer era bom demais, meu curso era duas vezes na semana, durante o percusso de ida (na volta eu só dormia e reclamava do calor), passava o tempo observando as pessoas às 5h da manhã estranhamente felizes, era ótimo, eu criava histórias, imaginava mil coisas hahaha, passava tão rápido que quando percebia já tinha chegado no meu destino, era a parte mais triste da viagem. Amei demais a crônica!!
    Beijos!

    www.maratonadehobbies.blogspot.com

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Ilustração por Wokumy • Layout por