24.11.16

Tudo o que você precisa saber antes de entrar na faculdade de Fisioterapia


Hoje vou contar para vocês um pouco sobre a profissão de fisioterapeuta. Ao invés de me aprofundar no dia-a-dia da profissão (acho que é relativamente fácil encontrar textos sobre isso) quero focar num assunto tabu:  os rendimentos.
 A fisioterapia é uma profissão relativamente nova, mas sofreu um “boom” nos últimos 15 anos com a proliferação de muitas faculdades – o resultado é pouca gente antiga no mercado mas muita meninada nova. Algumas áreas acabaram sobrecarregadas nas grandes cidades mas ainda há um déficit de fisioterapeutas no país em muitas regiões. E há áreas pouco exploradas mesmo nos grandes centros, carecendo de profissionais especializados.

São múltiplas as áreas de atuação: ortopedia, neurologia, respiratória, dermato-funcional, pediatria, neonatologia, saúde da mulher, desportiva, geriatria, preventiva, saúde pública, entre várias outras. Se fosse pra falar só sobre as possibilidades de atuação da fisioterapia eu já passaria escrevendo sem parar então vou me concentrar no que trabalhei mais tempo.

Me formei na Universidade Federal de Santa Maria, que tem um dos cursos de fisioterapia mais antigos do país. A faculdade foi uma experiência incrível e acho que valeu muito a pena deixar minha cidade pra mudar pra outro estado pra estudar. Se tiver a oportunidade, se jogue pois a gente agrega muito em vários aspectos. Eu tive professores excelentes e estudar numa federal é sempre um motivo de orgulho. Mas sabem, descobri anos mais tarde que mesmo em universidades particulares em cidades menores é possível encontrar professores fantásticos. Hoje eu trabalho em um hospital e tenho colegas mega gabaritadas que são professoras maravilhosas e dão aulas em faculdades locais.  E depois que sair da faculdade, quando estiver no mercado de trabalho, vai perceber que a origem não é tão importante assim. Mas o legal da universidade maior é que há muito mais oportunidades de projetos de extensão e estágios. 

Uma coisa tenha em mente: na fisioterapia você trabalha muito mas a remuneração é limitada. No início de carreira dificilmente você terá um bom salário. A maioria dos meus colegas começou trabalhando por muito pouco, até mesmo pagando pra trabalhar.  A diferença entre quem  prospera e passa o final da vida patinando é a gana de seguir em frente e não perder o foco de crescer e fazer mais através da fisioterapia. Tem que estar também de olho nas oportunidades e acima de tudo saber construir uma rede de contatos. Levou muito tempo pra eu descobrir que faculdade de origem, quantidade de cursos e congressos, notas ... tem uma importância muito pequenina perto do estabelecimento de contatos profissionais. Parece que não tem empregos na área mas a bem da verdade com o tempo você descobre que muitas vagas não são anunciadas ... as melhores vagas são muitas vezes preenchidas através de rede de contatos sem nunca aparecem num anúncio ou algo assim. 

Com o tempo você consegue maiores salários mas pouca gente vai realmente ganhar altos salários nesta área como acontece em áreas como engenharias ou áreas comerciais. As chances de conseguir maiores salários é se especializando muito e investindo em negócios próprios. Mas pra maioria haverá um teto limite, pois não somos como uma fábrica, que consegue ganhar cada vez mais aumentando a linha de produção. Nosso trabalho se limita a quantidade de pessoas que conseguimos atender em um dia ... sendo assim, uma maneira de ter maior rentabilidade é colocando um negócio de sucesso cobrando particular e tendo pessoas trabalhando pra você. 

Mas tenha em mente que isso é bem difícil de ser colocado em prática em boa parte das áreas. Isso porque a população em geral ainda valoriza pouco o trabalho do fisioterapeuta. Muitas vezes desconhece nosso trabalho e muitas vezes mesmo quando o conhece e se beneficia dele, não está disposto a pagar muito pelo serviço, mesmo sabendo de todo o potencial de melhoria que possa ter com ele.  Esquece essa ideia de que basta você trabalhar duro e ser muito bom no que você faz ... o mercado não depende só de você, infelizmente.  A maioria esmagadora dos fisioterapeutas acabará trabalhando no sistema de convênios, pois temos uma grande dependência deles: muito trabalho e uma renda apertada é a grande companheira desse sistema.  Eu já tive clínica e sei bem o quanto é desesperador o malabarismo a ser feito com o baixo valor pago pelos convênios e os altíssimos custos pra manter uma empresa, principalmente tendo funcionários. Não é a toa que grande parte das clínicas vai contratar sem ser por carteira assinada, as vezes baseado apenas em oferecer uma porcentagem dos valores pagos pelo convênio. E a rotina passa a ser bastante estressante, limitada pela correria por ter que atender muita gente ao mesmo tempo – única forma da conta fechar. É ruim pro funcionário, é ruim pra clínica, é ruim pro paciente. Mas ainda é a única saída de muitos. Mas não é absoluto isso. Tem clinicas que conseguem contratar com carteira assinada, principalmente quando elas tem incorporadas no seu trabalho outras fontes de renda que não englobam convênios (como estética, PILATES, etc.)

O sistema público também é um grande empregador e os concursos tem sido frequentes nos últimos anos. Muitas prefeituras contratam para o trabalho no Nasf, PSF, para atenção especializada em reabilitação ou ainda para hospitais. Mas apesar de grande empregador, poderia ser muito mais. Nos deparamos com inúmeros editais para concursos para profissionais da saúde em tudo que é lado do país solicitando os mais diversos cargos ... uma minoria deles inclui o fisioterapeuta. É um total descaso e desvalorização para com a nossa profissão. E é também aqui no setor público que notamos geralmente uma vantagem importante em função da nossa limitação de carga horária de 30 horas por empregador. Isso resulta em vermos nossa remuneração cair lá embaixo ... e eles se acostumaram tanto em pagar menos pra fisio, que eventualmente vemos concursos onde é a mesma carga horária no entanto outras profissões como enfermeiro ou psicólogo recebem até 20 a 30 % mais que a gente. 

Outra área onde não falta trabalho são os hospitais: internação, UTI geral, UTI pediátrica e neonatal, UTI cardiológica e neurológica, centros de queimados ... etc. A remuneração varia muito e depende muito do empregador, do sistema de trabalho. Ainda há muitos hospitais que contratam através de terceirização, o que gera um vínculo precário e menos benefícios trabalhistas e comumente a remuneração é mais baixa.  O perfil do hospital também vai influenciar bastante, pelo menos no que diz respeito aos hospitais não públicos. As residências multi alavancaram a inserção de muitos profissionais em hospitais, hoje em dia muitos deles se bastam com a experiência da residência pra decidir por uma contratação.  Portanto vale muito a pena partir pra uma residência após a faculdade se você tem intenção de se inserir na área hospitalar em especial. 

Mas no final das contas, o que querem saber é números ? Bom, vamos tentar esclarecer. No resumo da ópera posso afirmar pra vocês que muitos fisioterapeutas trabalham por menos de mil reais, mas quanto maior o tempo de serviço maior será o salário.  Ou seja, siga trabalhando firme e tenha paciência. Se você for ter como base só os recém formados e a opinião de quem está desgostoso com a profissão, vai se deparar com uma realidade que não é absoluta. Vai pensar que tudo está um caos e não há nem emprego e os salários são de miséria. Mas de forma geral, quando você persiste na profissão, logo alcança de 2 a 3 mil reais de salário e acumulando empregos pode facilmente chegar a 4 a 5 mil reais. Quem empreender, conseguir investir em áreas com maiores possibilidades de cobrança por sessões particulares, conseguir se livrar da dependência dos convênios, pode fazer os valores atingirem valores mais altos. Mas que fique claro que pra isso dificilmente vai ter vida mansa, vai trabalhar pra dedéu. Muito mesmo.  Outra opção é partir pra área do ensino ... como em qualquer área de ensino superior, um doutorado abre portas pra vagas com salários mais altos e toda aquele frenesi envolvido na vida acadêmica. Mas essas vagas são poucas, surgem lá de vez em quando e é preciso abrir mão de laços com a cidade de morada atrás dos locais onde tem vaga pra doutor. O mestrado já não tem mais tanto valor como teve outrora pois hoje já é o mínimo que se espera pra quem quer entrar pro ensino. Lembrando que quem optar por ir pra área de ensino apenas com especialização ou mestrado terá provavelmente um rendimento similar ao do fisio atuante em outras áreas. 

Minha sugestão pra quem já está na faculdade e já está preocupado com o futuro pós formatura: Se você quer ir pra área hospitalar, vá atrás de opções de residência (você vai receber para trabalhar um valor que ao menos te permitirá se manter na cidade e custear teus gastos enquanto se especializa).  Se você quer ir pra área de ortopedia, procure pelas clínicas da sua cidade e descubra o que eles oferecem de serviço aos seus clientes. Tente conversar com os proprietários, explique que é estudante e gostaria de saber quais as habilidades e cursos eles valorizariam hoje se fossem contratar um fisioterapeuta no momento.  Procure fazer cursos que envolvam esses conhecimentos. Durante a faculdade procure participar de congressos e cursos rápidos que tiver acesso, mas no pós faculdade valorize mais os cursos de formação (maitland, Mackenzie, terapia manual, etc) pois um curso de formação te dá mais potencial pra conseguir uma vaga do que 2 dúzias de congressos ou mesmo cursinhos rápidos feitos nos pré-congressos e simpósios. Não conheço muito da área da neuro mas acredito que deve valer o mesmo da ortopedia: invista em cursos de formação.  Para ir para áreas de saúde da mulher, geriatria, e outros nichos menos esperados você pode ainda dispensar especializações ou cursos de mais tempo de duração pois essas áreas ainda carecem MUITO de profissionais e você sabendo trabalhar bem, fazendo cursos rápidos, participando de projetos de pesquisa na faculdade e dando continuidade aos contatos na área, pode ser um pontapé pra seguir na área. Não estou tirando o mérito indiscutível da grande valia de uma especialização ou residência na área, mas realmente são poucas as pessoas que seguem ainda pra esse lado e por isso é mais fácil se inserir no meio quando você trabalhar por isso. Para entrar na área do esporte já é bem mais difícil: é um grupo bem seleto. Você deve investir nos cursos de formação, se possível fazer uma especialização mas preferencialmente começar desde a faculdade a se inserir no meio. Se não for possível, tente conseguir entrar no meio fazendo seu trabalho em agremiações, times pequenos, times amadores, etc. Você inicialmente pode até mesmo não receber quase nada por isso mas é uma dessas aeras que pode precisar de mais perseverança pra entrar no pequeno funil.  Já pra entrar na saúde pública, uma residência em atenção básica ou similares pode ser favorável mas ainda poucos lugares exigem .. mas já começa a te dar uma bagagem boa pra ir encarando os concursos na área. Nessa área você dificilmente entrará de outra forma (embora algumas cidades terceirizem a contratação de alguns setores da saúde como o Nasf  - o que pode permitir ingresso vai processos seletivos mais simplificados).  E para quem quer ir pra área de ensino, é fundamental se agarrar na faculdade nos professores que estão inseridos em projetos de pesquisa e ajudá-los em suas pesquisas. Produza: Faça artigos, ajude nos artigos, colabore nas coletas de dados. Isso te abre oportunidades pra emendar um mestrado. Produzir é fundamental !

Falei demais já né? E acreditem, não falei nada ! Tem muitas áreas da fisioterapia que não comentei. Mas espero ter ajudado com um pouquinho. Quem sabe no futuro abre um espacinho por aqui pra eu falar sobre o meu dia-a-dia na profissão ! ;)

 Escrito por: Paty Pimentinha, convidada do blog para a nova TAG profissões 

6 comentários:

  1. Uhuuu ! Que legal !!!

    Mais uma vez obrigada pelo espaço, bjs !!!

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    1. Eu que agradeço pela sua participação e por esse texto maravilhoso!!!
      Beijos!

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  2. Gostei muito do seu texto Paty.Tenho admiração e respeito pelo profissional fisioterapeuta, tivemos uma experiência bem positiva que só reforçou a compreensão da necessidade deste profissional,minha filha passou por vários ortopedistas e quem fechou o diagnóstico foi a fisioterapeuta.Parabens

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    1. Eba mãe que bom você aqui!! Fisioterapeutas são admiráveis mesmo! Inclusive essa o específica que você mencionou!

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  3. Superou todas as pesquisas q eu já tinha feito, sobre qual cursos fazer depois da faculdade! Parabéns

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    1. Que bom que superou! A Paty arrasou muito nesse texto!!

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