22.4.16

O Corcunda de Notre-Dame


Título: O Corcunda de Notre-Dame
Autor: Victor Hugo
Ano: 1831
Editora: Martin Claret
Páginas: 459
Edição: 2ª
ISBN:85-7232-639-1

Paris, século XV. Um padre, um homem deformado, uma cigana. O que eles têm em comum? Bom, para alguém que passasse pelos arredores da Catedral de Notre-Dame casualmente talvez esta pergunta não faça sentido. Mas Victor Hugo consegue, de forma genial, reunir estes e outros personagens em uma narrativa que se cruza e converge, pouco a pouco, para uma personagem: La Esmeralda, a cigana citada anteriormente. Mas vamos por partes.
Na catedral de Notre-Dame havia um padre, Claudio Frollo. Era costume no século XV que as crianças fossem deixadas à porta da igreja para serem adotadas. Em meio a bebês perfeitos havia um com uma séria deformidade no corpo inteiro, além de uma verruga onde deveria existir o olho esquerdo. Aquela criatura não podia ser uma criança. Claro que não, tratava-se certamente de algum demônio, e ele deveria ser queimado à moda da época. Porém o padre, compadecido, resolve criá-lo e dá-lhe o nome de Quasímodo.
Batizou o seu filho adotivo e pôs-lhe o nome de Quasímodo, ou porque quisesse marcar com ele o dia em que tinha sido encontrado, ou porque quisesse indicar até que ponto a pobre criaturinha era incompleta e apenas esboçada. Efetivamente, Quasímodo, zanaga, corcovado, cambaio, era apenas um quase
Também no arredores da catedral vivia o filósofo Pedro Gringoire, que estava sempre envolvido em confusões. Um dia, pobre e sem ter para onde ir, tenta abrigar-se no esconderijo dos ciganos, sendo condenado à forca. Só havia uma maneira de salvar-se, que era o casamento com alguma cigana. Eis que surge Esmeralda, que aceita ser a esposa de Gringoire para salvar sua vida. 
Esmeralda era a beleza em forma de mulher. Etava sempre dançando em seu tapete, com sua cabrinha treinada Djali, despertando amor em uns e ódio em outros. Dançava para ganhar a vida, visto que os ciganos eram totalmente marginalizados e rechaçados durante a Idade Média. 
Do alto da torre onde era sineiro, Quasímodo observava Esmeralda. Se ela era marginalizada,ele ocupava uma posição inferior. Quasímodo era feio, e aqui não há espaço para eufemismos. Uma criatura tão feia só podia ser má. Todo aquele tamanho, brutalidade e força não poderiam ser usadas para o bem. Além disso, Quasímodo tocava os sinos, todos eles sem exceção. Era seu único papel na sociedade, o que despertava o ódio das pessoas, pois o barulho impedia seu sono. De tanto tocar sinos, Quasímodo ficou surdo. A única pessoa que tinha um mínimo de consideração era o padre Cláudio Frollo.
Victor Hugo, autor da obra, divaga bastante antes da história engrenar-se de vez. Ele discorre por longos capítulos em um comparativo de Paris nos séculos XIV e XV, explicando todo o seu processo de construção e desenvolvimento. Também ha uma longa divagação sobre o livro substituir as tabuletas de granito e uma competição entre a arquitetura e a imprensa. Confesso que apesar de interessantes estas partes foram cansativas e prejudicaram o entendimento da obra. 
A história começa de fato quando Esmeralda é condenada injustamente pela morte do capitão Febo. A partir daí a crítica aos valores medievais e a indivíduos e seus desvios de comportamento ficam mais pungentes.
Pausa para a lombada arrebentada
Victor Hugo, apesar de ter vivido no século XIX, faz uma profunda análise dos valores do final da Idade Média. Então, à época em que foi escrito, O Corcunda de Notre-Dame já era um romance histórico.
O povo, na Idade Média, sobretudo, é na sociedade o que é a criança, na família. 
O livro expõe, sem eufemismos, as várias máscaras que as pessoas podem usar em sociedade, e a podridão individual que cada um guarda. A época retratada tem episódios de enforcamento como forma de entretenimento popular, que gerava alienação e a falta de julgamento individual. Não diferente do que acontece hoje, as pessoas já assumiam o indivíduo como culpado e o demonizavam, abrindo espaço para  penas de morte e torturas extremamente cruéis.
Bela corja de bestas e de estúpidos estes parisienses! Vêm ouvir um mistério e não prestam atenção a uma palavra! Passaram o tempo a olhar de boca aberta para toda a gente: Clopin Trouillefou, o cardeal, Coppenole, Quasímodo, o diabo! Mas nem um olhar se dignaram lançar para a Senhora Virgem Maria, esses basbaques!
O livro retrata como nos acovardamos diante das nossas próprias injustiças, e como é difícil assumirmos os nossos erros. Mostra também que não devemos nos enganar pelas aparências externas, visto que o homem feio só tinha a bondade a oferecer, enquanto o belo, apesar de poder conquistar o que bem entendesse, mostrava-se um homem sem escrúpulos e sem compaixão alguma.
Esmeralda é uma personagem feminina forte, com personalidade marcante e extremamente humana. Apesar de haver uma certa romantização de sua beleza, ela é verossímil e não tem toda aquela perfeição moral que as mulheres costumam ter. Cláudio Frollo talvez seja o personagem mais profundo da obra. Ele é dicotômico como um todo, é anjo e demônio, é fé e é razão, e é quem mais se transforma com o passar das páginas.
Olha quantos Post-its!! 
A escrita de Victor Hugo é deliciosa. Ele é culto e prolixo sem ser maçante. Tirando aquele detalhe das divagações, a leitura flui muito bem.
Trata-se de um livro extenso, com 470 páginas em sua versão de bolso (editora Martin Claret). Com toda a certeza este foi o livro que eu mais marquei na vida. Não sei como isso aconteceu, mas pela primeira vez eu arrebentei uma lombada (realmente descolou o miolo da parte da frente da capa). Recomendo a leitura para todos aqueles que amam clássicos ou que querem iniciar a leitura de obras de Victor Hugo. Confesso que alguns anos atrás eu abandonei a leitura de Os Trabalhadores do Mar por achar muito chato. Isso não aconteceu em O Corcunda de Notre-Dame (ou Notre-Dame de Paris). Esta leitura é um shot de cultura, de profundidade e sensibilidade. Não posso dar menos que 5 aviõezinhos. 

6 comentários:

  1. Olá, Lívia! Em outro post seu, ou talvez em algum comentário seu lá no LPL, você mencionou a resenha desse livro, e vim aqui procurar, mas não achei. Fiquei feliz de ver que você postou hoje!
    Enquanto lia a resenha, só conseguia pensar no desenho da Disney, mesmo sabendo que é uma adaptação que muita coisa deve ter sido modificada. Mas eu não imaginava que o livro retrata uma história em outro século. É muito interessante imaginar isso!
    Lembro que passei a ter um pouco de curiosidade com O Cordunda de Notre Dame depois de ler "Os Sertões" e ver Euclides da Cunha chamando o homem sertanejo de "Hércules-Quasímodo". Agora que já conheço a escrita do Victor Hugo, sei que vou gostar muito quando tiver a oportunidade de ler!

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    1. Lethycia, eu arrisco dizer que este é um dos melhores livros que já li na minha vida! Victor Hugo é fantástico! A história é bem diferente do desenho da Disney, bem menos inocente. E com certeza muito mais pungente. Nunca li Os Sertões, mas conheço esta caracterização para o nordestino e confesso que foi um dos motivos pelo qual comprei o livro.

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  2. Adorei a resenha, já ouvi falar sobre outras versões do livro mas nenhuma me agradou muito. Vou procurar esse livro e essa versão da editora Martin Claret.
    Abraços!
    http://umlivroabertoig.blogspot.com.br/

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    1. Por versões você quer dizer adaptações ou publicações de editoras diferentes? Esta da Martin Claret é bem básica, mas tem algumas notas de rodapé. É boa pelo preço e praticidade, mas confesso que eu queria aquela lindona da Zahar.
      Seja bem vindo a bordo!

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  3. Oi, tudo bem? Adorei a resenha. Sempre quis ler algo clássico dele, mas ainda não tive essa oportunidade :'( Achei muito bom poder conhecer mais sobre a história e como o livro e a escrita do Victor Hugo.

    Fiz uma TAG no meu blog e te marquei, se você puder dar uma olhada: TAG: Esse ou Esse

    Abraços!

    Lapso de Leitura

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    1. Pois não perca mais tempo e leia logo algo do autor! Ele é maravilhoso. Obrigada pela indicação, vou lá dar uma olhada.
      Seja bem vindo a bordo!!

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