18.9.15

Resenha: Reinações de Narizinho

Coitadinho, está meio acabado, mal dá para ler o título na capa





Título: Reinações de Narizinho
Autor: Monteiro Lobato
Editora: Editora Brasiliense
Edição: 14ª edição, 1966
Ilustração: J. U. Campos e André Le Blanc
Páginas: 312



Numa casinha branca, lá no sítio do Picapau Amarelo, mora uma velha de mais de 60 anos. Chama-se dona Benta.
Junto com esta ilustre senhora, que creio que todos conhecemos da infância, vivem Lúcia, uma menina de sete anos, morena como o jambo e tem nariz arrebitado (por isso o apelido, Narizinho), Tia Nastácia, a cozinheira e Emília, uma boneca de pano que posteriormente ganha vida.
O primeiro contato de  Narizinho com o príncipe Escamado e com o mestre Cascudo, quando eles sobem no nariz da menina adormecida e indagam sobre aquela "montanha", me lembrou muito o seriado que passava na Globo quando eu era criança.
-Muito mole para ser mármore. Parece antes requeijão.
-Muito moreno para ser requeijão. Parece antes rapadura - volveu o príncipe.
 Confesso que li o diálogo imaginando a voz dos atores. Eu tinha o VHS e assistia quase todos os dias.
Narizinho é introduzida ao Reino das Águas Claras, fica noiva do príncipe, conhece seres incríveis e até mesmo consegue a cura para a mudez de Emília.
Nas férias, Pedrinho, o neto de dona Benta que vive na cidade, vai visitar o sítio, e chega montado em seu cavalo pangaré. Juntas, as crianças vivem aventuras incríveis, com os personagens mais fantásticos possível. Aparecem o Gato Felix, as princesas dos contos de fadas, Peter Pan, Ali Babá, Pequeno Polegar e vários personagens da nossa infância.
A obra é dividida em capítulos, que até podem ser lidos com certa independência, nos quais as crianças, brincam, visitam reinos distantes, viajam e se envolvem em confusões. Tudo isso sem sair do Sítio. A grande "culpada" por isso é dona Benta, que lê historias para os netos todas as noites. 
Logo que adquiri o livro, uns três anos atrás, comecei a ler. Não sei porque parei. Retomei a leitura agora em julho, e confesso que foi essa retomada que deu aquela coceirinha para colocar em prática o meu antigo projeto de criar um blog. Eu precisava escrever sobre este livro.

As minhas impressões


O livro é fantástico, ainda mais essa minha edição, super antiga que encontrei no Parque da Cidade, no projeto Leitura na Praça, realizado pelo Rotary Clube de Jundiaí. Ele está com as fontes da capa (que suponho que tenham sido douradas) bem apagadinhas, mas acho lindos esses livros antigos.
Mas voltando para historia, que eu já disse ser fantástica, ela o é em todos os sentidos da palavra. Aparecem criaturas mágicas por todos os lados, sabugo de milho que fala (Visconde de Sabugosa), boneca falante, pó de pirlimpimpim, menino invisível, e até mesmo Esopo e La Fontaine fazem uma pontinha no livro. Monteiro Lobato é sensacional criando este universo mágico. Pelo menos as pessoas que têm aproximadamente a minha idade provavelmente cresceram assistindo o Sítio (as mais velhas também, minha mãe mesmo fala que assistiu na época dela) e os personagens são bem familiares. É obvio que o seriado dos anos 2000 alterou bastante a história para adaptá-la ao "politicamente correto".
Durante toda a obra, percebe-se que todas as aventuras partem da imaginação das crianças, pois elas brincam com os personagens das histórias de dona Benta. Vê-se que Lobato coloca a leitura como elemento transcendental, a exemplo do Visconde de Sabugosa, que, por viver entre os livros, é um grande sábio. Cada vez mais aumenta a ânsia das crianças por novas avenuras literárias e há inclusive um episódio em que Pedrinho se adianta na leitura dos novos livros tamanha a sua curiosidade. Emília, apesar de seus muitos defeitos, é uma grande contadora de histórias. E baseando-se nessas historias, as crianças passam o tempo todo de suas férias abstraindo e imaginando aventuras que são contadas como se fossem reais. Eu tive esse prazer na infância, brinquei bastante com personagens imaginários e até mesmo famosos com minha irmã. Brincávamos inclusive de Sítio do Pica-Pau Amarelo. Por isso, o livro me trouxe aquele gostinho de nostalgia. 

Racismo e polêmicas

Não vou negar que o livro tenha elementos racistas. Tem, e não são poucos. Apesar disto, sou totalmente contra a publicação dos livros editados, pelo menos aqueles em versão integral. As versões adaptadas para serem lidas por crianças pequenas ou na escola (igual a várias por aí de Shakespeare, Alice no País das Maravilhas, Cyrano de Bergerac, etc) até podem omitir essas partes por se tratarem basicamente de um resumo contado de uma forma mais acessível a essa faixa etária, mas sou a favor de continuarem existindo concomitantemente edições com o texto original. 
Creio que Lobato tenha escrito não com intuito de ser preconceituoso, mas utilizando o próprio pensamento da época. Se ele fosse racista não teria escrito o livro de contos Negrinha (no caso eu só li o conto Negrinha mesmo, pretendo ler os outros em breve), em que ele critica fortemente o pensamento escravista que estava (e ainda está) enraizado na mente brasileira. Logo, creio que o racismo presente em Reinações de Narizinho seja o racismo da sociedade contemporânea a Lobato, e não apenas do autor. 
Mesmo assim, Tia Nastácia é chamada de macaca, tem vergonha de sua cor e Cinderela não bebe café para não ficar preta. Emília conta a todas as princesas que a personagem foi amaldiçoada a ser negra e cozinheira, quando sua verdadeira identidade é a de  uma linda princesa. Logo na primeira página, temos a seguinte citação, que já nos insere neste universo racista:
Na casa ainda existem duas pessoas - tia Nastácia, negra de estimação que carregou Lúcia em pequena, e Emília, uma boneca de pano bastante desajeitada de corpo. 
Reparem no termo "negra de estimação", e digam se não remete ao contexto escravista. O autor poderia ter dito cozinheira ou simplesmente empregada doméstica e essa passagem perderia o seu contexto racista. Afinal, não há problema ela ser negra (assim como também não o teria caso fosse branca e loira) e ser empregada doméstica, é uma profissão tão digna quanto as outras. Apesar disso, as crianças têm grande carinho por essa mulher, e sem ela a historia não seria a mesma.
Além disso, o livro é todo politicamente incorreto: Pedrinho tem uma arma com a qual atira no Marquês de Rabicó,além de desferir pontapés e coques no pobre porquinho. Emília é manipuladora e interesseira, faz tudo por dinheiro, até mesmo esconde os óculos de dona Benta a fim de ganhar uns trocados. Dona Benta é chamada de velha, e o irmão de Pinóquio, o boneco que eles constroem, é chamado de feio o tempo todo.
No ano em que o livro foi escrito não tinha toda essa preocupação com o politicamente correto. O certo e o errado, moral e imoral dependem muito do contexto social e da época, por isso não podemos crucificar Lobato com os preceitos de hoje, mas tentar entender um pouco a sociedade que lhe foi contemporânea.É claro que isso justifica o preconceito racial, e tem muita gente lutando bravamente para que ele acabe. Todo esse contexto do livro refere-se a um longo período de exploração que os negros sofreram no Brasil, e que deixa cicatrizes até hoje, então não podemos ser passivos. Como adultos, devemos usar a obra como um mecanismo de auto-conscientização e até mesmo fazer um exercício critico.  
Sendo sincera, nos dias de iPhone e iPad não creio que uma criança de oito ou nove anos resolva passar o seu tempo lendo um pequeno calhamaço de 312 páginas. Talvez uma versão adaptada e cheia de figuras coloridas desperte melhor seu interesse pela leitura. Por outro lado, uma "criança" de doze ou treze anos já tem uma capacidade maior de discernimento e se foi criada num ambiente mais tolerante vai estranhar essa enxurrada de preconceitos. Para as crianças menores, creio que, apesar de ser uma realidade um tanto quanto utópica, seria legal que os pais fossem lendo a história aos pouquinhos e parando nessas partes para perguntar para a criança o que há de errado, explicando os motivos do erro, inclusive dando '"spoilers" do que eles irão aprender em História dali a alguns anos. É uma linda forma de aprendizado.
Caso algum de vocês leitores sejam pais, irmãos mais velhos, tios, ou convivam com crianças, tentem fazer a experiência e me contem nos comentários. Acho muito importante despertar desde cedo o senso crítico nas crianças, para que elas cresçam questionando, ao invés de crescer primeiro para depois começar a se questionar.
Então se você ainda não leu Reinações de Narizinho, recomendo que leia. Não só pela história em si, que é muito legal, mas também para formar sua própria opinião quanto a essas polêmicas envolvendo o Monteiro Lobato. 
Olha só essas ilustrações, que coisa mais linda de se ver!

Concluindo


Eu indico o livro, mas com ressalvas. Realmente fiquei triste ao me deparar com tanto preconceito, mas isso não atrapalha a leitura, pelo contrário, serviu como uma forma de reflexão. Eu me diverti bastante, foi uma historia que realmente me sequestrou. É composto de vários capítulos, cada um com um título diferente, que são interdependentes, mas podem perfeitamente ser lidos sem que se tenha conhecimento do anterior. Cada um deles traz uma aventura diferente. Eu achei muito legal que todas essas aventuras das crianças são meio que "culpa" de dona Benta, que lê uma historia nova para eles todas as noites antes de dormir. Gostei bastante das ilustrações, mas não sei se as novas edições as trazem. 
Agora o que mais me impressionou, fazendo um comparativo com outras duas historias infantis antigas, Volta ao mundo em 80 dias do Julio Verne e O mágico de Oz de L. Frank Baum, é que hoje elas não são mais tão infantis assim porque não falam mais a língua das crianças. Os adultos conseguem tirar boas mensagens delas, resgatar um pouco a infância e exercitar o senso crítico. 
Eu amei o livro, me identifiquei com Narizinho e Pedrinho porque brincava muito no quintal de casa com minha irmã (meu quintal parecia uma chácara, tinha bastante árvore, mato, cachorro, gato, espaço para correr..), e nós gostávamos de nos imaginar como personagens famosos, colocar outros para "interagir" conosco e ficávamos por semanas desenvolvendo a mesma história, fazendo "eventos", chamando a mãe, a avó para participar, assim como as crianças de Reinações de Narizinho. Brincávamos inclusive de O sítio do Pica-pau Amarelo. É sensacional, queridos passageiros! Leiam Reinações! Mas por favor, expliquem às crianças aqueles "probleminhas", nós queremos acabar com o racismo, não formar uma nova geração de preconceituosos!

4 comentários:

  1. Impossível não se encantar com as maravilhosas histórias fantásticas de Monteiro Lobato.

    Parabéns pela resenha!

    Beijokas da Quel ¬¬
    http://literaleitura2013.blogspot.com.br/

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    1. São realmente maravilhosas, Raquel! Obrigada pelo carinho! Beijos!

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  2. Nossa nunca li as primeiras edições, apenas um que era fino e cheio de figuras no decorrer da estória. Mas gostei do seu post, devemos sim incentivar as crianças a lerem e ainda mais despertar a sua imaginação. Bateu saudade da minha época de criança em que eu e meus irmão passavamos o dia todo brincando!!!
    Parabéns pelo post.

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    1. Tão boa essa época, não é mesmo, Nathália? As edições adaptadas são válidas também, é legal para estimular a leitura dos clássicos originais! Acho que nós leitores temos um importante trabalho de incentivo de leitura. Se cada um de nós mudarmos uma criança tornando-a leitora, imagina o "estrago" que não faremos no mundo?
      Obrigada pelo carinho, seja bem vinda q bordo!

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Ilustração por Wokumy • Layout por